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O que é treino polarizado? Definição, fórmula e exemplo

Definição

Treino polarizado é uma distribuição de intensidade em que a maior parte do volume é feita abaixo do primeiro limiar, uma fatia menor acima do segundo e muito pouco entre os dois.

Treino polarizado descreve um jeito de distribuir a intensidade: a maior parte do volume claramente leve, uma fatia menor mas real claramente forte, e muito pouco no meio. A ideia não saiu de um protocolo de laboratório, e sim da observação do que atletas de endurance de elite fazem de verdade. Revisando os estudos descritivos, Stephen Seiler viu que atletas de nível nacional e internacional que treinam de 10 a 13 vezes por semana tendem a fazer cerca de 80% das sessões em baixa intensidade e 20% dominadas por trabalho forte, como tiros em torno de 90% do VO2máx (Seiler, 2010).

Esse padrão costuma ser resumido como “80/20”. O atalho esconde dois detalhes importantes: quais zonas você conta e se conta sessões ou minutos.

As três zonas

O treino polarizado usa um modelo de três zonas baseado em dois limiares fisiológicos. A zona 1 fica abaixo do primeiro limiar ventilatório ou limiar de lactato (lactato no sangue por volta de 2 mmol/L): rodagem leve em que dá para conversar em frases completas. A zona 2 fica entre os dois limiares. A zona 3 começa acima do segundo limiar (por volta de 4 mmol/L, perto da velocidade crítica), onde ficam os tiros.

Cuidado com a confusão de nomes. Nos sistemas de cinco zonas da maioria dos relógios, a “zona 2” é a rodagem leve, que cai dentro da zona 1 do modelo de três zonas. O treino polarizado não pede que você evite esses treinos leves; pede que passe pouco tempo entre os dois limiares.

Colocando um número

Treff e colegas (2019) propuseram um índice de polarização para separar uma distribuição polarizada das outras, a partir da fração do tempo (ou da distância) de treino em cada uma das três zonas:

PI = log10(Z1 / Z2 × Z3 × 100)

  • Z1, Z2, Z3 = fração do tempo total em cada zona (0,80 para 80%), Z1 + Z2 + Z3 = 1
  • Válido se Z1 > Z3 > Z2. Se Z3 = 0, PI = 0. Se Z2 = 0, use 0,01 para Z2 e Z3 − 0,01 para Z3
  • PI > 2,00: polarizado. PI ≤ 2,00: não polarizado

Um exemplo com números

Uma corredora treina 8 horas por semana. Em um mês, o tempo dela por zona fica em 80% na zona 1, 5% na zona 2 e 15% na zona 3.

  • Z1 / Z2 = 0,80 / 0,05 = 16
  • 16 × 0,15 × 100 = 240
  • PI = log10(240) = 2,38, acima de 2,00: polarizado

Mude a mistura para 75% / 20% / 5%, uma pirâmide com bastante ritmo e poucos tiros: PI = log10(0,75 / 0,20 × 0,05 × 100) = log10(18,75) = 1,27. Um bloco focado no limiar, 60% / 35% / 5%, dá 0,93. Mesmas horas por semana, três semanas bem diferentes.

Sessões ou minutos?

O 80/20 de Seiler conta sessões. O tempo por zona mostra outra coisa, porque um treino forte é feito principalmente de aquecimento, recuperações e desaquecimento. Um treino de 70 minutos com 5 × 4' em pace de 3 a 5 km tem 20 minutos de trabalho, e como a frequência cardíaca sobe com atraso, o relógio registra ainda menos na zona 3. Seiler e Kjerland (2006) mediram dos dois jeitos em onze esquiadores de fundo juniores durante 32 dias: pela frequência cardíaca, as sessões de endurance se dividiram em 75% / 8% / 17% entre as três zonas, e a PSE da sessão deu quase o mesmo. Quatro rodagens de uma hora mais esse treino de tiros formam uma semana 80/20 por sessões, mas só 20 dos 310 minutos, cerca de 6%, são fortes. Nenhuma das leituras está errada, mas compare igual com igual.

Como aplicar

Para quem treina cinco ou seis vezes por semana, uma semana polarizada pode ser assim: três ou quatro rodagens leves e um longão, todos abaixo do primeiro limiar, mais um ou dois treinos fortes como 5 × 4' ou 6 × 3' em pace de 3 a 5 km, com trote de recuperação da mesma duração. Os dias leves precisam continuar leves, o que para quase todo mundo significa mais devagar do que gostaria; defina o teto com a calculadora de zonas de frequência cardíaca ou com o teste da fala. As estatísticas do OpenAthlete mostram a fatia do treino abaixo, entre e acima dos seus limiares, o suficiente para conferir que tipo de semana você realmente correu.

Limites

O apoio experimental mais forte vem de Stöggl e Sperlich (2014): 48 corredores, ciclistas, triatletas e esquiadores bem treinados seguiram por nove semanas um de quatro programas, e o grupo polarizado melhorou o VO2pico em 11,7% e o tempo até a exaustão em 17,4%, mais que os grupos de volume, limiar ou tiros. Nove semanas e 48 atletas divididos em quatro grupos é um estudo curto e pequeno, com pessoas que já estavam em forma. O próprio Seiler (2010) apresenta o 80/20 como descritivo: é para onde convergem os atletas de sucesso, não a prova de que seja o ideal para todos. Quem tem quatro horas por semana talvez ganhe mais com algum treino de limiar do que com uma polarização rígida; a questão segue aberta. Por fim, as zonas dependem de limiares que precisam ser testados ou estimados, e um erro de 10 batimentos joga minutos de uma zona para outra.

Fontes

  1. Seiler KS, Kjerland GØ (2006). Quantifying training intensity distribution in elite endurance athletes: is there evidence for an “optimal” distribution? Scandinavian Journal of Medicine & Science in Sports 16(1): 49–56. doi.org/10.1111/j.1600-0838.2004.00418.x
  2. Seiler S (2010). What is best practice for training intensity and duration distribution in endurance athletes? International Journal of Sports Physiology and Performance 5(3): 276–291. doi.org/10.1123/ijspp.5.3.276
  3. Stöggl T, Sperlich B (2014). Polarized training has greater impact on key endurance variables than threshold, high intensity, or high volume training. Frontiers in Physiology 5: 33. doi.org/10.3389/fphys.2014.00033
  4. Treff G, Winkert K, Sareban M, Steinacker JM, Sperlich B (2019). The polarization-index: a simple calculation to distinguish polarized from non-polarized training intensity distributions. Frontiers in Physiology 10: 707. doi.org/10.3389/fphys.2019.00707

Perguntas frequentes

Mais ou menos. O 80/20 é a contagem de sessões que Seiler observou em atletas de elite: cerca de 80% de sessões leves e 20% fortes. O polarizado acrescenta uma condição: o trabalho forte fica acima do segundo limiar, e se passa pouco tempo entre os dois limiares.

Sim, se for a zona 2 de um relógio de cinco zonas: é rodagem leve, que pertence à zona 1 do modelo de três zonas. O que o polarizado limita é a zona intermediária do modelo de três zonas, entre os dois limiares.

Os estudos foram feitos com atletas treinados ou de elite. Para quem corre três ou quatro vezes por semana, muita rodagem leve e um treino mais forte é um bom começo; se esse treino deve ser de tiros ou de limiar ainda é discutido.

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