Software de treino de código aberto: de quem são seus dados?
O seu histórico de treino dura o mesmo que a plataforma que o guarda. O que o código aberto, a AGPL e a auto-hospedagem mudam, e o que não mudam.
Alguns anos de histórico de treino são muito material: cada treino de tiros, cada curva de frequência cardíaca, cada anotação do tipo "dormi cinco horas, perna morta". Para um treinador é ainda mais: anos de treinos estruturados, modelos e temporadas montadas para cada atleta. Onde esse material fica, e quem decide o que acontece com ele, parece uma questão abstrata até o dia em que uma plataforma fecha ou muda de dono.
Plataformas fecham e mudam de dono
O Today's Plan, uma plataforma de treino e assessoria, fechou em março de 2024. Os usuários tiveram que exportar o que conseguiram e recomeçar em outro lugar. Em julho de 2026 a Garmin comprou o TrainingPeaks e o TrainHeroic. O TrainingPeaks continua funcionando, e nada indica que vai tratar outras marcas de forma diferente. Mas as planilhas, as bibliotecas de treinos e as relações com os atletas de muitos treinadores de endurance agora pertencem a um fabricante de relógios, e as decisões sobre essa plataforma vão levar em conta os interesses da Garmin.
Nada disso é escândalo. Empresas são compradas e às vezes quebram. A questão é que, numa plataforma fechada, o seu histórico de treino dura o mesmo que o negócio que o guarda.
O que "exportar seus dados" entrega de verdade
Na União Europeia, o artigo 20 do RGPD garante o direito à portabilidade: os dados que você forneceu, num formato estruturado e legível por máquina. No Brasil, a LGPD também prevê a portabilidade. Na prática, o que dá para levar varia muito. Arquivos de atividade (FIT, GPX) costumam sair sem problema, porque toda ferramenta lê. Treinos planejados, comentários do treinador, modelos e o jeito como uma temporada foi montada são outra história: costumam ficar num formato próprio da plataforma e, mesmo quando dá para exportar, pode ser que nenhuma outra ferramenta consiga importar.
Dois hábitos ajudam, seja qual for a ferramenta. Faça as suas atividades chegarem a mais de um lugar, por exemplo da conta do relógio para a sua plataforma de treino e para um segundo serviço, para que nenhuma empresa tenha a única cópia. E peça uma exportação completa uma vez por ano, antes de precisar, para ver o que você realmente receberia.
O que o código aberto muda, e o que não muda
O código do OpenAthlete é público. Isso tem algumas consequências concretas. Você pode ler como a carga de treino é calculada em vez de confiar numa caixa-preta. Pode ver quais dados saem do servidor e para onde vão. E, se o projeto parasse amanhã, o código, o esquema do banco de dados e os arquivos de migração continuariam lá, e qualquer pessoa poderia continuar rodando. Os dados ficam num banco PostgreSQL comum, não num formato que só uma empresa entende.
Código aberto não deixa um software seguro por si só. Um código que ninguém lê não fica mais seguro por ser público, e um projeto pequeno tem menos revisores do que um popular. Também não garante que alguém vai continuar mantendo. O que ele garante é que você tem permissão para olhar, e que existe a opção de seguir sem o autor original.
Por que a AGPL
O OpenAthlete é distribuído sob a Licença Pública Geral Affero GNU v3. Qualquer pessoa pode usar, modificar, rodar e redistribuir. A condição é que, se você modificar e deixar outras pessoas usarem a sua versão pela rede, precisa oferecer a elas o código-fonte dessa versão. A GPL comum não exige isso para um software usado como serviço web, e é por isso que existe a variante Affero.
Na prática, ninguém pode pegar o OpenAthlete, acrescentar recursos e vender como um serviço hospedado fechado. As melhorias de quem roda o software para outras pessoas voltam para todos. A versão hospedada em openathlete.org usa o mesmo código público; recursos que só fazem sentido lá, como a cobrança, ficam desligados enquanto não forem configurados.
Auto-hospedagem, sem enfeite
Você pode instalar o OpenAthlete no seu próprio servidor com o docker-compose.yml do repositório ou com as imagens publicadas no GHCR. Ele precisa de PostgreSQL e Redis, ambos incluídos no arquivo compose. É gratuito, sem limite de atletas nem recurso pago. Uma instância auto-hospedada não envia nada ao OpenAthlete, e um teste automatizado confere isso a cada versão. Dá para conectar login único via OIDC, escolher cadastro aberto, por convite ou fechado, e rodar os recursos de IA num modelo local com Ollama, para que absolutamente nada saia da sua máquina.
Os custos existem, porém. Backups, atualizações e segurança ficam por sua conta. As conexões com os relógios usam as suas próprias credenciais de desenvolvedor em cada provedor: algumas, como as do Strava, saem rápido, enquanto outras, como as da Garmin, passam por uma análise do pedido antes de liberar o acesso à API. O envio de arquivos FIT, GPX ou TCX funciona sem nada disso. A auto-hospedagem faz mais sentido para um treinador ou uma assessoria com alguém que se vire bem com servidor, ou para uma organização que precisa manter os dados dos atletas na própria infraestrutura. A página de auto-hospedagem explica a instalação.
Se você prefere não cuidar de servidor
A versão hospedada é gratuita, com todos os recursos. A API e o banco de dados rodam na OVH, na França, e o app web é servido pela Vercel. O plano Supporter (5 € por mês ou 50 € por ano) acrescenta IA nas chaves do OpenAthlete e o acompanhamento de mais de cinco atletas, e ajuda a pagar os servidores. Os motivos por trás do projeto estão na página sobre código aberto.